A TRANSPARÊNCIA COMO DISPOSITIVO DE PODER
UMA GENEALOGIA CRÍTICA DA RACIONALIDADE NEOLIBERAL E SEUS EFEITOS DESDEMOCRATIZANTES
Resumo
A transparência é rotineiramente evocada pelo senso comum acadêmico e institucional como o principal remédio contra a corrupção e o vetor primordial da accountability democrática. No entanto, este artigo desafia essa premissa consensual e elabora uma genealogia e uma ontologia crítica da transparência na contemporaneidade. Sob o posicionamento epistemológico da contabilidade crítica e da ontologia do presente foucaultiana, combinada à genealogia nietzschiana, a investigação mapeia o deslocamento do ideal iluminista de publicidade republicana para um sofisticado dispositivo de governança neoliberal. Metodologicamente, realiza-se uma análise crítica de discurso estruturado em quatro trajetórias históricas: democrática-emancipatória, de mercado, de vigilância e de engenharia social. Os resultados demonstram que a eficácia da transparência contemporânea reside em sua plasticidade conceitual, o que permitiu sua portabilidade e a colonização das esferas públicas por órgãos de controle e mercados financeiros. O estudo conclui que o imperativo da hipervisibilidade quantitativa esvazia o intervalo reflexivo da deliberação política, converte escolhas valorativas em conformidades técnicas e engendra o cinismo político. Como alternativa a esse esvaziamento, sustenta-se a transição para o conceito político de accounterability.
Palavras-chave: Transparência; Neoliberalismo; Sociedade da Auditoria; Psicopolítica; Desdemocratização.
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